
A obesidade ainda esbarra na dificuldade de ser reconhecida como uma doença. Para muitos, o excesso de peso é visto como descuido, falta de disciplina ou falta de força de vontade. Essa visão distorcida, além de injusta, mascara a realidade: obesidade é uma condição crônica, com causas diversas e completa, com alto impacto na saúde. Ela limita movimentos, corrói autoestima, multiplica riscos de câncer, diabetes e hipertensão, além de encurtar vidas.
Enquanto pacientes lidam com o estigma no trabalho, nos consultórios e até dentro de casa, o sistema público de saúde falha em oferecer tratamento adequado. No Brasil, milhões têm indicação de cirurgia bariátrica, mas apenas uma fração ínfima consegue acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No caso da obesidade severa, o procedimento é a alternativa indicada.
Caminho eficaz
“Após certo ponto, o tratamento clínico fica difícil. Mesmo se fizer tudo certinho, com exercício, dieta e medicação (incluindo as injeções conhecidas popularmente como ‘canetas emagrecedoras’), menos de 0,5% dos pacientes com obesidade severa conseguirá perder o peso que precisa. Nesses casos, a cirurgia é o único tratamento eficaz“, diz o cirurgião Álvaro Ferraz, chefe do Serviço Cirurgia Geral do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Mas infelizmente um universo muito pequeno de pacientes com esse tipo de obesidade consegue passar pela bariátrica. O resultado é uma fila que segue à margem do tratamento, enquanto a doença avança.
Os números ilustram essa realidade. A população adulta, no Brasil, é formada por cerca de 170 milhões de pessoas. Entre eles, 23% vivem com obesidade. O percentual corresponde a um universo de 34 milhões de indivíduos, em média, segundo dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde.
“Se estratificarmos ainda mais, olhando só para a obesidade grave, são 5,75 milhões com indicação cirúrgica. Entre eles, cerca de 22% têm algum tipo de seguro ou tratamento privado. Mas 77%, ou seja, quase 4,5 milhões, dependem única e exclusivamente do SUS”, diz o cirurgião Álvaro Ferraz, chefe do Serviço Cirurgia Geral do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
“Prejuízo” de R$ 5 mil por cirurgia que devolve vidas e clama por novo financiamento
Os dados trazidos pelo médico nos levam a refletir o que faz essa matemática ser tão excludente. Nesse ponto, não podemos deixar de discutir o fato de o SUS enfrentar restrições de recursos, burocracia e subfinanciamento.
O HC-UFPE é um hospital-escola 100% SUS que realiza cirurgia bariátrica desde 1997. Ao lado de instituições de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, ele foi um dos primeiros a fazer esse tipo de procedimento pelo SUS. “Somos o único hospital do Brasil que tem uma residência médica em cirurgia bariátrica, credenciada pelo Ministério da Educação, há oito anos. Temos uma equipe multiprofissional e, para cada bariátrica que fazemos no HC, determinamos um prejuízo entre R$ 3 mil e R$ 6 mil. Alguém tem que pagar essa conta.”
Para criar alternativas que possibilitem a realização do procedimento na rede pública, Álvaro conta que médicos têm se mobilizado para conseguir apoio. “Buscamos parcerias, emendas parlamentares, recursos federais, recursos estaduais.”