
Revolta e injustiça são os sentimentos da personal stylist Silvia Tavares de Souza após a absolvição do padre Airton Freire da acusação de estupro denunciada por ela em 2022. O sacerdote e o motorista Jailson Leonardo da Silva foram absolvidos pela Justiça.
“Muita revolta. Estou me sentindo muito injustiçada, mas não vou desistir. Enquanto vida tiver, vou lutar. Não só por mim, mas por todas as vítimas. Até hoje estou vivendo ameaças, brigas no meio da rua, pessoas que me desmoralizam”, ressaltou Silvia.
O padre Airton segue sendo investigado em outros inquéritos após denúncia de mais três mulheres e um homem por crimes sexuais.
A mulher aponta que, depois da exposição do caso, outras pessoas a procuram para relatar casos envolvendo o religioso. “Posso dizer que mais de 50 pessoas me procuraram no meu Instagram dizendo que não iam denunciar com medo de morrer”, disse a personal stylist.
Silvia conta que faz acompanhamento com psicólogo e psiquiatra devido aos traumas adquiridos após o ocorrido e reforça o conjunto de provas contra o padre Airton e o motorista Jailson Leonardo.
“Eu perdi a minha vida. O que ele fez comigo naquela casinha, ele mentiu do começo, meio e fim. Disse que não estava na casinha, eu provei por A mais B que ele estava. Ele disse que não tinha esperma, eu provei que tinha esperma. Ele falou que não tinha foto minha, mas ele tirou foto minha, tanto de frente como de costas. Tenho todas as provas possíveis”, reforçou a denunciante.
O advogado de Silvia, Rafael Nunes, destacou que a decisão surpreendeu e que vai recorrer. “Iremos devolver para o segundo grau do Tribunal de Justiça de Pernambuco, que dessa vez será julgado por um colegiado. Tenho certeza que o Tribunal irá reformar essa decisão”, destacou o advogado.
A acusação aponta que todas as provas constam nos autos do processo e que a denúncia de Silvia não é isolada.
“Estávamos muito confiantes, certos da condenação, porque a produção de provas, o que foi produzido nas audiências, não restou qualquer tipo de dúvida. Existe prova de que ele apagou os dados de geolocalização do celular dele, existem testemunhas que corroboram com todo esse contexto”, ressaltou Rafael Nunes durante coletiva de imprensa em seu escritório, nesta terça-feira (31), no Recife.
Rafael Nunes citou a tentativa da defesa de Airton de tentar apontar que Silvia teria problemas psicológicos. Segundo o advogado, a ação tenta enfraquecer a denúncia de sua cliente.
Rafael Nunes, advogado de acusação, afirma que vai recorrer | Foto: Matheus Ribeiro/Folha de Pernambuco
“A defesa tentou dizer que ela é louca, que ela não sabe o que diz, mas eu posso afirmar que minha cliente sabe o que diz, sabe o que fala e não é louca. Isso é uma tentativa de querer diminuí-la, de querer enfraquecer a palavra dela”, afirmou o advogado.
Nunes destacou os danos vividos pela personal stylist após exposição do caso.
Só prejuízo psicológico, mental, agressão no meio da rua. Ela idolatrava ele como padrinho, como líder religioso. Não existe ninguém querendo se vingar de ninguém. O que existe são os fatos e lutaremos até o final para reverter esse cenário”, ressaltou a acusação.
A absolvição do sacerdote foi divulgada pela sua defesa. Procurado pela reportagem, o Tribunal de Justiça de Pernambuco informou que o processo segue em segredo de justiça.
Segundo os advogados do padre Airton Freire, as provas periciais reunidas na investigação contradizem a versão apresentada pela denunciante e inviabilizam a comprovação do crime.
Relembre o caso
Silvia Tavares afirma ter sido estuprada em agosto de 2022. De acordo com seu depoimento, o crime teria sido praticado pelo motorista Jailson Leonardo da Silva, sob ordens do sacerdote.
O padre Airton e o motorista foram presos em 2023, quando o caso se tornou público. O sacerdote teve a prisão domiciliar decretada em julho daquele ano após apresentar problemas de saúde.
À época, a denunciante contou que tinha uma relação próxima com o religioso, a quem se referia como “padinho”, e que participava de retiros espirituais promovidos por ele desde 2019, realizados em uma fazenda no município de Arcoverde, no Sertão de Pernambuco.
Padre Airton Freire foi preso em 2023 após denúncia de estupro | Foto: Divulgação
Silvia Tavares de Souza foi a primeira pessoa a denunciar o religioso, que foi denunciado posteriormente por outras três mulheres e um homem por crimes sexuais.
Segundo o relato de Silvia à polícia, o caso teria ocorrido durante um retiro espiritual na Fundação Terra, em Arcoverde, onde ela foi chamada pelo padre Airton Freire até a casa onde ele estava hospedado para fazer uma massagem.
Durante a situação, ela percebeu que ele estava sem roupa e decidiu interromper, mas, ao tentar sair, afirma que foi rendida pelo motorista do padre, que a ameaçou com uma faca no pescoço.
De acordo com a denúncia, o motorista teria cometido o estupro sob ordens do padre, que se masturbava enquanto presenciava a cena