Quando a delegada Patrícia Neves Jackes Aires, de 39 anos, começou a trabalhar na 4ª Coordenadoria Regional de Polícia do Interior (Coorpin), em Santo Antônio de Jesus, a unidade ainda não dispunha de uma área dedicada à investigação de feminicídios e crimes contra crianças e adolescentes. Esses casos eram tratados de maneira similar a outros tipos de crime. Era o ano de 2017. A direção da delegacia decidiu então criar um setor especializado para esses casos e escolheu Patrícia para liderar essa nova área.
Um investigador que colaborou com Patrícia durante quatro anos conta essa história com emoção. Ele recordou que a delegada era conhecida por seu bom humor e comunicação eficaz. Para ilustrar seu relato, o policial mostrou um áudio que havia recebido da delegada, no qual ela fazia piadas semanas antes de sua morte.
“Ela era extremamente comunicativa. Onde quer que fosse, conseguia se entrosar facilmente e tinha uma grande paixão por trabalhar em campo, acompanhando as prisões. Recebia denúncias de agressões e violência doméstica e assumia a liderança na situação. Quando o setor de investigação foi criado, Drª Patrícia lutou por mais recursos. Ela era realmente dedicada”, relatou o investigador.
Patrícia foi encontrada morta em seu carro, no município de São Sebastião do Passé, no domingo (11). O principal suspeito do crime é seu companheiro, Tancredo Neves Feliciano de Arruda, que se encontra preso. A polícia aguarda o laudo da autópsia para confirmar a causa da morte, mas a principal suspeita é que Patrícia tenha sido estrangulada.
“Estamos esperando os laudos periciais e as imagens das câmeras de segurança coletadas desde Santo Antônio de Jesus até as BRs 101 e 324. O processo pode demorar, mas temos equipes de vários departamentos envolvidas. Ele nega o crime, assim como as duas ocorrências anteriores de violência doméstica em sua ficha, em Itamaraju, e a agressão a uma médica em Feira de Santana”, explicou a delegada.
Patrícia possuía uma medida protetiva contra Tancredo. Além das acusações relacionadas ao crime contra Patrícia, o homem foi indiciado pela Polícia Civil por exercício ilegal da medicina e falsidade ideológica. Embora tenha se formado em medicina no exterior, ele não realizou o exame Revalida para obter a autorização para praticar a medicina no Brasil.
A investigação iniciada em 2022 pela Delegacia Territorial de Euclides da Cunha concluiu que ele não tinha competência para atuar como médico no país.
Ele afirmou aos policiais que estava com Patrícia há cerca de quatro meses. Amigos da delegada confirmaram o relacionamento, mas ressaltaram que o casal vivia em constante conflito, terminando e reatando a relação várias vezes. Patrícia deixou um filho de 7 anos.
ENTERRO
O corpo de Patrícia foi trazido para o Recife. O sepultamento aconteceu na manhã desta terça-feira (13), no Cemitério Parque das Flores, no bairro do Sancho.
Fonte: JC